Fiz um piquenique no estádio mais antigo do Brasil

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Paranapiacaba - SP

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Há cerca de dois, três meses, um seguidor comentou comigo sobre o estádio perdido em Paranapiacaba, que seria o estádio mais antigo do Brasil. Desde então passei a estudá-lo para verificar a validade da informação e não parei de pensar no que eu poderia fazer de diferente além de visitá-lo.

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Visitar o primeiro estádio no Brasil representa uma viagem no tempo e, consequentemente, na história do futebol nacional. Como voltar no tempo sem jogos e num campo que tudo indicava estar abandonado? Eu deveria voltar no tempo com algo simples, como um piquenique no parque, ou melhor, no estádio. Será que alguém já fez isso antes? Nos dias atuais, certamente não. É isso, por um mês planejei um piquenique no estádio mais antigo do Brasil! E, com a ajuda de amigos queridos, transformei uma visita numa experiência inesquecível.

Todo o período preparatório para o piquenique foi baseado em estudos sobre o estádio e em acompanhar as condições meteorológicas. O clima interfere muito na paisagem de qualquer lugar do mundo, mas em Paranapiacaba, ao contrário de 90% dos lugares do mundo, o céu fechado e encoberto por neblina é o que deixa o distrito de Santo André mais bonito.

Antes de seguir e compartilhar tudo sobre o piquenique que fiz no estádio mais antigo do Brasil, devo dizer que não há uma verdade absoluta quanto a esta informação. No entanto, a maior parte dos estudos levantados por historiadores do futebol e reportagens apontam que o estádio da vila inglesa de Paranapiacaba é mesmo o mais antigo do Brasil. Aqui está tudo o que você precisa saber sobre o meu piquenique por lá (e se planejar para fazer o seu):

Como chegar a Paranapiacaba




Sabe que essa foi a maior dificuldade que encontrei? Há muitas informações imprecisas na internet sobre como chegar a Paranapiacaba, muitas que dizem que não é possível chegar até lá de transporte público, o que não é verdade.

Entre tantas informações desencontradas, tirei a minha prova de que é possível chegar à vila de transporte público, já que as outras duas opções (que descrevo mais abaixo) não me pareciam atrativas. Saí da Zona Sul de São Paulo às 7h27 de domingo (23/09/2019) e cheguei a Paranapiacaba às 10h30, um trajeto longo mas tranquilo.

Paranapiacaba é um distrito de Santo André, mas não fica exatamente dentro da cidade da Região Metropolitana de São Paulo. Perto da serra do mar, a vila inglesa fica a 44 km da capital paulista. É chamada de vila inglesa por conta de sua origem. Foi criada pelos ingleses no século XIX durante a construção da via férrea de Santos.

A linha de trem que chega o mais próximo possível de Paranapiacaba é a linha 10 Turquesa da CPTM. Esta linha tem início na estação Brás de trem e metrô e que faz ligação com três outras linhas: linha 2 Vermelha, linha 11 Coral e linha 12 Safira. Independentemente de que linha você utilize e de quantas integrações faça, a integração nas linhas de metrô e trens de São Paulo é gratuita, assim a passagem para chegar até Rio Grande da Serra custa R$ 4,30. Ao desembarcar em Rio Grande da Serra, é preciso pegar um ônibus para chegar a Paranapiacaba. Para isso, na saída da estação, vire à esquerda e atravesse a linha do trem e a rua em frente, vire à direita e em seguida à esquerda. O ponto fica logo à frente, do lado direito. Se tiver dúvidas, não se preocupe, alguém vai te indicar o caminho, inclusive os motoristas de Uber que ficam por ali. No dia, me ofereceram a ida até a vila por R$ 25 para quatro pessoas. Se quiser um conforto a mais vale a pena. Vou até deixar o contato de um dos motoristas aqui. O Felipe é monitor ambiental, cultural e receptivo turístico na Vila de Paranapiacaba e Rio Grande da Serra. Seus contatos: 11 972683348, vilavia.contato@gmail.com ou @felipeparanapiacaba no Instagram.

Eu preferi ir de ônibus mesmo porque queria ver se era possível e tranquilo chegar lá assim. A passagem de ônibus custa R$ 4,55 e o bilhete único que usamos em São Paulo não é aceito, leve dinheiro trocado. A linha que leva até a vila é a 424 e o tempo de viagem dura cerca de 15 minutos. O ponto de parada é no próprio ponto final. Na volta, você vai pegar o mesmo ônibus, no mesmo local só que do outro lado da rua e descer no ponto final que fica a 100 metros da estação de trem de Rio Grande da Serra.

Como chegar ao campo de futebol de Paranapiacaba

Quando descer no ponto final, é só seguir reto e descer a ladeira em direção a Paranapiacaba. Logo vai avistar um quadro com a sinalização dos principais pontos turísticos do lugar, incluindo o campo de futebol, sinalizado como Campo de Futebol U. L. S. Para chegar até ele, atravesse a ponte e siga à esquerda até o próximo mapa, com o campo agora sinalizado como número 9, é só seguir a sinalização, o campo está em todas as placas turísticas, assim como o Clube União Lira-Serrano. O campo de futebol do Serrano Athletic Club, o primeiro estádio do Brasil, fica na Av. Fox, s/n. Antes de seguir até o estádio, vale parar para contemplar a arquitetura do Clube Lira-Serrano, que tem tudo a ver com o estádio.

O União Lyra Serrano competiu por divisões inferiores do futebol paulista, e já chegou a enfrentar clubes importantes dos primórdios do futebol brasileiro, como Jabaquara, Portuguesa Santista e Nacional, conhecidos por participarem da fundação da Federação Paulista de Futebol. O Lira era um clube voltado para a música que se uniu com clube de esportes Serrano, dando origem ao Lira-Serrano.

O que faz do campo de Paranapiacaba o estádio mais antigo do Brasil

O estádio mais antigo do Brasil tem como nome oficial Campo de Futebol do Serrano Athletic Club e estima-se que tenha sido inaugurado em 1894, ano em que aconteceram as primeiras partidas de futebol profissional no País. Como diz a própria placa fincada detrás do estádio, o Serrano foi registrado na Federação Paulista de Futebol alguns anos depois da inauguração do Campo de Futebol, em 1903. Foi somente após a fusão com a Sociedade Recreativa Lyra da Serra que o clube passou a ser o dono do campo.

O time de futebol do Serrano era formado por funcionários da São Paulo Railway Company, responsável pela construção da ferrovia de Santos.

Além de ser o estádio mais antigo do Brasil, o campo de Paranapiacaba traz muito orgulho à vila por ser também um dos mais antigos em uso em território nacional. Ainda que a frequência seja um tanto esporádica com a realização de partidas amadoras.




Boa parte do material levantado até aqui aponta que o campo de Paranapiacaba seja o mais antigo do Brasil e algumas lendas juram que Charles Miller teria até jogado neste campo quando desembarcou no porto de Santos e subiu a serra do mar de trem. Sob a alcunha de pai do nosso futebol, Charles Miller voltou ao Brasil depois de estudar na Inglaterra com uma bola de futebol e um livro de regras. Miller era também funcionário da São Paulo Railway.

Paranapiacaba foi tombada como Patrimônio Histórico e por isso tem preservado até hoje boa parte de suas construções originais, assim como sua identidade inglesa. Até no campo de futebol, longe de suas melhores condições, é possível se notar a preservação do estilo bretão. A dimensão do campo superou minhas expectativas, um tamanho bem aceitável para um primeiro estádio brasileiro. A pequena arquibancada de madeira, de um lado só do gramado, não comporta muita gente, mas tem identidade. É só fechar os olhos para imaginar a classe com se jogava aqui, senão pela bola nos pés, sim, pelo clássico estilo inglês.

As traves puídas, o gramado fofo agravado pela chuva e a neblina deram o toque especial a esta visita. Foi como se presenciasse as coisas como elas eram quando tudo começou. A construção de madeira azul podia não ser dessa cor, mas sua alma certamente permanece ali. Do outro lado, uma portinha trancada de cadeado leva para o meio da arquibancada. Vestiários? Nem sinal se existiam ou não. Hoje o que se observa são casas ao redor do campo, duas ou três morro acima e uma morro abaixo.

Piquenique

Quando planejei esta visita ao Campo de Futebol do Serrano, meu objetivo era fazer o piquenique no gramado do campo, então imagine minha decepção na caminhada da entrada da cidade até o estádio com toda a chuva que caía. Até olhar diretamente para a parte interna da arquibancada, achei que o piquenique seria uma furada, porque pelo que tinha em mente, a arquibancada estaria destruída. Num golpe de sorte em quem se tornou obcecada por assentos de arquibancada, os dois últimos lances estavam inteiros, limpos e parcialmente secos.

Montei minha toalha e dispus – com a ajuda dos meus amigos, essenciais nesta experiência – todas as delícias que trouxemos para tornar este um momento marcante para o Guia dos Estádios. Não estávamos apenas visitando o estádio mais antigo do Brasil, estávamos fazendo um piquenique no estádio mais antigo do Brasil. Perdoem-me a falta de modéstia aqui, mas isto, neste contexto, é fazer história!

Passamos cerca de duas hora ali comendo, bebendo e contemplando a neblina até ser possível avistar algo além do branco que cobria o campo. À medida que a chuva apertava, a neblina se dissipava e assim que as traves apontaram no horizonte, fui registrar com o pé no gramado o que era o primeiro campo de futebol profissional do Brasil. Missão cumprida. Debaixo de chuva, sendo levada pelo vento, mal conseguindo me equilibrar, o trabalho estava feito!

O que levar para um piquenique no estádio mais antigo do Brasil

Se você precisa de alguma referência do que levar para um piquenique neste estádio, aqui vão algumas sugestões de acordo com o que levamos. Dá para dividir os alimentos em algumas categorias, como doces, salgados, frutas e bebidas. Levamos dois tipos de bolo (bolo-pudim e bolo de maçã), torta de frango, brusquetas, hambúrguer vegano e azeitonas, suco de uva e pêssego, água, uvas roxa e verde e maçãs. Uma toalha ou uma canga, guardanapos, copos, faca e colheres são essenciais, assim como um saco para levar todo o lixo de volta para casa.

Pontos turísticos incluídos

Claro que a chuva não estava nos meus planos, o tempo fechado, sim, esse precisava estar exatamente assim para viver a experiência da maneira que deveria ser. Mas não fosse a chuva, a história talvez não teria sido tão interessante. Porém, tudo que li, reli e ouvi, dizia que o charme de Paranapiacaba estava nos dias nublados, com a neblina se fazendo ser vista e lembrada como a Silent Hill brasileira. Os mais jovens talvez não conheçam a referência mas quem é da minha época certamente vai se lembrar do melhor jogo de aventura/terror/suspense da história #semclubismo! Fizeram até um filme dele, nem de longe tão legal quanto, mas que talvez você tenha visto também.

Com o sol, você certamente verá as belas construções com mais clareza, mas eu concordo totalmente que deve perder muito de sua identidade inglesa. Sob o sol, Paranapiacaba é só mais uma. Com a neblina, é única!

O que ver em Paranapiacaba além do estádio mais antigo do Brasil

Igreja do Senhor Bom Jesus de Paranapiacaba

A Igreja do Senhor Bom Jesus fica na entrada de Paranapiacaba, ao lado do posto de atendimento aos turistas e do ponto final do ônibus. Ela foi reaberta em abril de 2019 após reforma e tem como padroeiro o Senhor Bom Jesus.

Ponte e Museu Funicular

O Museu Funicular possui oficinas, ferramentas e diversos utensílios usados na fabricação e manutenção dos trens antigamente. Entre os que podem despertar a curiosidade estão vagões da São Paulo Railway. A entrada para o museu fica no meio da ponte e custa R$ 5.

Museu do Castelo

O Museu do Castelo fica no ponto mais alto da vila e na época da construção da ferrovia era a residência do engenheiro-chefe da estação.

Trilhas e cachoeiras

Se sua visita ao estádio incluir também a rota das belezas naturais de Paranapiacaba, aí sim indico que vá somente quando o tempo estiver firme. No meio da Mata Atlântica, a vila possui várias trilhas e cachoeiras que valem a pena, como a Trilha do Olho D’Agua. Mas nem se arrisque a ir sem um guia. No Paranapiacaba Ecotur você encontra sugestões.

Caminhada e biketour

Só de caminhar pelo distrito já é um passeio turístico. Os casarões seguem bem a influência britânica, alguns estão abertos a visitação de forma gratuita. Restaurantes e cafés estarão à sua disposição, com opções desde refeições completas até a iguarias de uma fruta típica chamada cambuci. Em um dos espaços, você vai encontrar uma feirinha com produtos artesanais e lembrancinhas da vila, como camisetas e imã. Como sempre levo imãs das cidades que passo, comprei o meu também. Dois por R$ 5. Para os mais experientes em passeios de bicicleta, vi muitos ciclistas andando pelas ruas de pedra portuguesa, todos bem equipados.

Informações importantes sobre Paranapiacaba

  • A entrada na cidade é gratuita, assim como a utilização de seus banheiros públicos;
  • É possível chegar até a entrada da vila de carro e estacionar no bolsão próximo ao posto de atendimento aos turistas e à igreja. Segundo a prefeitura de Santo André, os guardadores que ficam por ali são credenciados e apesar de não cobrarem, sugere-se que se ofereça um valor como pagamento. Durante festivais este valor pode chegar a R$ 45. Se for de carro, coloque “Estacionamento Paranapiacaba Ecotur” como destino no GPS. De lá, siga o trajeto que descrevi anteriormente;
  • Outra forma de chegar a Paranapiacaba é por meio do Expresso Turístico que sai da Estação da Luz, às 8h30, ou da Estação Prefeito José Celso Daniel, às 9h. O trajeto é realizado aos sábados e domingos e o retorno acontece às 16h30. O percurso tem 48 km e é realizado em 1h30. Custa R$ 50 (ida e volta), saindo da Luz e R$ 44 (ida e volta), saindo da Prefeito José Celso Daniel. As passagens podem ser adquiridas nas bilheterias das duas estações. Confira a programação e disponibilidade de vagas no site da CPTM;
  • Tem muito cachorro nas ruas de Paranapiacaba e vai parecer estranho dizer isso mas eles olham para você – OLHAM MESMO! -, então, se puder levar alguma coisinha para dar para eles, seria legal.

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